Pensar em si mesmo. Primeiro nos próprios interesses. Querer o melhor para si antes de pensar no outro. Sentir-se e ser indivíduo, um ser único. Amar-se muito mais do que aos outros.
Querer e defender uma singularidade escancarada, sem culpa, sem medo. Nossas crenças, assim como nossas histórias, confirmam que sempre somos
levados a não pensar no ser individual que somos. Tratam como egoísta aquele que pensa em si em primeiro lugar. 

O filósofo britânico que viveu no século XVIII, Adam Smith disse que, o ser humano é egoísta por natureza e que, com sua ganância ele acaba beneficiando a
sociedade em que vive. Importante começar pela idéia de Smith ao afirmar, que permitir a atitude egoísta do
indivíduo é deixá-lo livre e sem barreiras, pois, este é o gatilho de uma sociedade onde a defesa dos interesses individuais gera o movimento da economia que, por consequência,
dá conta de mover a sociedade sem a necessidade da interferência do estado. Adiante vamos explorar de forma mais abrangente a relação indivíduo, egoísmo e
ganância, bem como a liberdade de ser individual. A história deixa registros de indivíduos, que atuaram partindo da visão e defesa das próprias necessidades e interesses e que geraram resultados para a sociedade; o egoísmo e a ganância de Smith sendo perseguido como poder político, riqueza, com
Hitler e Napoleão, ou sendo perseguido como luta por classes, religião, domínio, comando, com Mandela, Gandhi, Eistein; para ambos os exemplos acima, tantos outros
podemos buscar. Fato é que, todo o indivíduo buscou defender algo o qual queria para si e mesmo causando posteriormente o bem ou o mal coletivos, partiram do indivíduo-
individual.

Observando os personagens do cinema percebemos que, os vilões são egoístas e individualistas, enquanto os mocinhos são plurais, pensam na coletividade, sofrem em
defesa do próximo.
A Bíblia trata diversas vezes o sentimento individual como egoísmo. Em Marcos 8:36-37 o egoísmo destrói o indivíduo: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo
inteiro e perder a sua vida? Ou que diria o homem em troca da sua vida?”. Em Tiago 4:3 diz, “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em
vossos deleites”. Em Gálatas 2:20 “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas
Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”.
Essa compreensão generalizada, trás nossas crenças para o medo de ser bem sucedido primeiro, antes do todo, de ser tratado como indivíduo-individual. É esse
processo cultural, que nos coloca tendo todos os meios de benefícios, evolução ou relacionamento social voltado para o coletivo, provocando que todos devem ter o
mesmo comportamento, o mesmo sentimento, o mesmo desejo. No mundo dos negócios, a Watkins Brothers, em 1903, a primeira empresa que
permitiu que “distribuidores” fossem além de “comprar no atacado e vender no varejo” e deixou que eles levassem a oportunidade de comercialização de seus produtos a outros
distribuidores, obtendo, assim, ganhos sobre toda a rede de distribuição. Outro personagem lendário da indústria do Marketing de Rede é o médico e químico
californiano Carl Rehnborg que, dedicado ao estudo da nutrição, adotou o modelo de Marketing de Rede quando decidiu iniciar sua própria empresa de nutrição. Hoje
milhares de negócios e marcas ocupam esse espaço do marketing de rede. Esta visão de trabalho envolveu o princípio da idéia de diminuir a coletividade para ampliar o ganho
pelo indivíduo, contudo, não alcança a raíz do que é lidar e ver o indivíduo-individual. O marketing de rede, que no mercado é tratado também como marketing
multinível, por ter uma estrutura de varios níveis, surgiu em 1903 nos Estados Unidos e tomou o mundo; é o modelo de negócios que procurou começar a modificar a relação do
coletivo com o indivíduo. No entanto, trata a rede de distribuição por meio de pessoas, distribuidores de produtos direto do fabricante e a relação de pessoas como números
estatísticos, que compram e vendem, recebem e distribuem produtos. Nenhum deles, apesar de terem indivíduos envolvidos se relaciona com os
indivíduos-individuais, o relacionamento é genérico e faz com que os consumidores e a própria rede de vendedores, sejam vistos como coletivos. Esses mesmos que se sentem
parte da sociedade coletiva e que, por “autosatisfação” estatística, encorpam para os fabricantes os dados das planilhas de forma positiva.

Assim como nos negócios (mercado de produtos), o mercado político também trata como coletivo o que deveria ser individual. Na política institucionalizada, não há
proatividade onde o político trabalha pela prevenção, por exemplo, ele move-se somente de forma reativa.
O mercado político é atento ao que precisa consertar agindo reativamente, considera que, o problema está resolvido, ao atender o que aparece coletivamente.
Sabendo-se que, o “aparecer coletivo” não significa um advento de problema novo e sim a exaustão das angústias individuais chegando ao seu ápice, propagado de forma
escancarada. O lucro financeiro, o poder do conglomerado eleitoral na decisão de poder político, a estatística de produção e consumo de produtos, a fé de uma congregação
religiosa. Todos os níveis de indivíduos coletivos, posicionando e reposicionando a onda do mercado, sem compreender o poder da necessidade do indivíduo-individual.
O político, por perceber a existência somente do coletivo, leva tempo demais até conceber o fato e agir.
Destacamos apenas dois temas que confirmam isso. A violência contra a mulher e tarifas bancárias.

A violência contra a mulher é historicamente conhecida, mas, foi necessário algo enfatizar de forma coletiva para que se tornasse considerável pelo mundo político. Uma
dezena de indivíduos representando uma bandeira ideológica tem mais peso do que milhões de indivíduos individuais, mesmo que sofra o mesmo impacto por mais longo
tempo. “Uma em cada 14 mulheres já foi – ao menos uma vez em sua vida – vítima de abuso sexual”, dados da ONU. Segundo o sociólogo francês Pirre Bourdieu em sua obra
“A dominação masculina” (1998), expõe a questão da violência simbólica. Um tipo de violência cultural, que são naturalmente repassados de cultura a cultura. Essa violência
segundo Bourdieu tem origem causada nas diferenciações biológicas. Habitus inconscientes de percepção impostas, que determinam os comportamentos entre os
homens e mulheres.
Historicamente a sociedade age complacente a dominação masculina, o sociólogo atribui que, o coletivo é responsável por esse determinismo simbólico, tendo
como agentes disseminadores; família, igreja, escola e o Estado. 

A violência contra as mulheres faz parte de um sistema social e histórico da humanidade que condicionou as mulheres a uma posição inferior hierarquicamente
inferior da escala de perfeição.

Os estudos vem há anos dizendo que a mulher sofre violência, mas, ainda são indivíduos individuais, promovendo ou sofrendo a violência.

O Estado não percebeu a importância ou não foi sensível o bastante para encarar o fato.
Uma farmacêutica de nome Maria da Penha Maia Fernandes, em 1983, chamou a atenção do individuo coletivo, após sofrer severas agressões do seu marido, o
professor universitário Marco Viveros. Tantativas de assassinato por tiro, deixou Maria da Penha paraplégica, após retornar a casa, o marido tentou eletrocutá-la durante o
banho. Iniciando então uma batalha judicial até 1996.
Nesse meio tempo Maria da Penha lançou um livro (1994). O livro de Maria da Penha relata agressões sofridas por ela e pelas filhas,
chamando atenção de duas organizações – Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJEIL) e Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher
(CLADEM).
Todo sofrimento vivido não foi o bastante para o mundo político tomar uma atitude a favor do cidadão, foi necessário o envolvimento do indivíduo coletivo se
mover. O caso foi parar na Comissão Internacional de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1998.
Em 2001 o Estado brasileiro foi condenado por negligência, omissão e tolerância em relação a violência doméstica contra as mulheres.
O Estado brasileiro foi obrigado a concluir o processo penal do agressor, que só ocorreu em 2002.
Em 2006 o Congresso Nacional aprovou a Lei Maria da Penha. Os números de ocorrência da violência contra a mulher não era menor, mesmo
assim, o indivíduo individual não tinha importância ao Estado.

Outro exemplo prático da miopia do mundo político ao indivíduo, está nas taxas cobradas por bancos brasileiros. Pequenas taxas ou tarifas eram cobradas de clientes,
engordando os cofres das instituições bancárias, irrisórias para uma briga, mas muito lucrativas, pelo volume recebido diariamente. Em 2010 o Banco Central brasileiro
editou uma resolução de numero 3.919, objetivando regular normas sobre tarifa e taxas bancárias. Só ocorreu com o movimento do individuo coletivo pelo código de defesa do
consumidor, que por outros motivos foram criados, mas, que acabaram por favorecer também no setor bancário, que mesmo tendo a regulamentação, tem um “lobe” forte o
bastante para autoproteção, o que não ocorre com o individuo individual. É comum encontrar clientes de bancos negativados pelos órgãos de proteção ao
crédito, por cobrança de taxas e tarifas bancarias, somente ai a questão é resolvida. Essa postura acaba acarretando peso ao sistema judiciário e distanciando usuários de serviços
bancários ao pagamento dos valores, mesmo sem dever.
Foi reguamentado a favor dos bancos, mesmo a custa de todo sistema que existe em volta.
Lembra da história do porco assado?
Os lucros dos bancos no Brasil em 2007 chegou a mais de 45 bilhões de reais, um crescimento de 35,9%, graças as taxas e tarifas.
Os indivíduos estavam sendo penitenciados a bancar lucros injustos desde o Império.
Em outra via que, em determinado momento se encontra com a religião, os negócios e a política, a comunicação em suas diversas expressões colaborou e colabora
ainda, para potencializar o grupo dos individuos coletivos e reduzir a expressão do indivíduo individual. O ato de comunicar algo a alguém se tornou tão massivo, por
intermédio de veículos e estratégias de comunicação e relacionamento, que tornou a premissa básica do “ser” em massa. Indivíduos, separados por credo, cor, gênero,
comportamentos (também categorizados, criando um ciclo vicioso de rótulos sem fim) foram se tornando coletividade no mundo e deixando se serem ouvidos ou considerados.

Não importa o tamanho do grupo, ele é grupo, não é indivíduo-individual. Não importam os detalhamentos de conceitos sobre massa, grupo, público e suas estratégias
especificas de comunicação, todos eles dependem de extrair do indivíduo uma parcela de cessão ou de concordância para que o coletivo seja atendido. Quando defendemos
que o caminho para o pertencimento, e para a mudança, é a o entendimento do indivíduo, independente ao grupo que ele pertence, para que ele se torne foco único do
que comunicar e de como se relacionar.

O indivíduo se sente clandestino quanto quer (e é) individual.

Sente, às vezes, culpa. Se resigna, resolve calar seu ponto de vista, sua ação, seus anseios, por não ser parte de “algo maior” validado pelo coletivo. A história, religiosa,
política, social, publicitária, institucional, nacional, nos mostra inúmeros exemplos onde defender a si, é um erro.
O conceito foi sendo elaborado de que o grupo é sempre maior. Na esfera da comunicação, as redes sociais tornaram esse sentimento (porque
não é de todo um fato) de ser um indivíduo fora da coletividade mais provável, pois ele pode ser indivíduo (quase) ocultamente individual, no entanto, a necessidade e
exigência de pertencimento o devolvem aos grupos coletivos, assim como na vida real.

AUTOR

João Aguiar






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